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Reside em nós

 

Viber e Prisca são artistas que entendem que uma obra existe em comunidade, não à toa seus trabalhos se destacam pela pintura mural e o graffiti, uma natureza de trabalho que se coloca na horizontalidade em relação ao receptor. É na rua, indo para o trabalho, passeando com a família, de bicicleta com os amigos, que seus trabalhos nos convocam ao pensamento. 

 

Para além das ruas, existe um processo de criação que acontece no íntimo de cada uma delas. É em casa e no ateliê que esses trabalhos começam, como sementes, como embriões, como tudo começa: dentro da casca.

 

Reside em nós parte de um olhar para dentro dessas cascas. Antes de tudo que se manifesta para fora, é importante olhar para si. Existe uma imagem que sempre me acompanha e que, talvez, possa nos dar uma dica sobre o que significa olhar para si - uma estrela de sete pontas. Em um determinado momento da minha vida entendi que essa estrela é na verdade uma rosa dos ventos e que serve para me reorientar, ela aponta para todos os sentidos aos quais tenho que me atentar: Acima, abaixo, Norte, Sul, Leste, Oeste e dentro. 

 

Entremos, então, nessas cascas-casas-oceanos. 

 

Um corpo ocupa uma área de 170x110cm, isso foi o que pensei quando nos encontramos pela primeira vez, e foram em telas com essas medidas que as duas artistas começaram suas investigações. Recolhendo fragmentos de memórias, alegrias e traumas reviraram a si mesmas para reinventar o agora de seus próprios corpos.

 

Dois corpos juntos ocupam o dobro disso e mais um pouco. Em seu livro “O espírito da intimidade”, Sobonfu Somé nos conta que no encontro entre duas almas nasce uma terceira, a que ela chama de espírito da intimidade. Assim como nossos próprios corpos, esse espírito precisa de cuidado e cultivo para se manter vivo e para crescer.

 

Foi então que pensei que dois corpos juntos são muito maiores que 170x220cm, assim me vi entrando nessa casca-casa-oceano. Nesse momento nos transformamos em um grupo. Já não eram mais dois corpos e um espírito da intimidade, mas se formaram corpos infinitos que trazem consigo todos os ancestrais, todos os descendentes e todas as possibilidades do que será a mulher artista.

 

Essa é a comunidade, a confluência de que Nego Bispo fala. Como líquidos de cores diferentes nos encontramos aos poucos e, nas interseções entre esses corpos, somos mulheres que nos descobrimos e nos inventamos ao mesmo tempo. Entendemos que somos, de mãos dadas, os três tempos conhecidos, e assim fazemos a transição de um mundo linear para aquele que dá voltas. 

 

Existe um símbolo Adinkra chamado Sankofa, ele é representado por um pássaro mítico que voa para frente, com a cabeça voltada para trás e carrega um ovo em seu bico. Esse símbolo origina-se de “se wo were fi na wosan kofa a yenki”, um provérbio tradicional entre os povos de língua Akan em Gana, Togo e Costa do Marfim, que pode ser traduzido por “não é errado voltar atrás e buscar o que esqueceu”.

 

Viber veio do bairro Alto Vera Cruz e Prisca do Coqueiros, ambos eram antigas fazendas no entorno de Belo Horizonte. No começo, esses dois bairros não possuíam transporte público. Aqueles que chegavam, vindos do centro, precisavam caminhar entre trilhas, abrindo o mato para construir sua morada, seu sustento, sua família. 

Hoje Viber e Prisca seguem os caminhos desses antigos no sentido inverso, abrindo o mato no campo das artes, no campo simbólico e ocupando o centro da cena cultural. Elas são artistas que criam o transporte para si, e para os seus, descentralizando a subjetividade, trabalhando fragmentos de suas histórias pessoais e coletivas para que o mundo nunca se esqueça que a arte não nasce no museu, nem na academia e que a história da arte não nasceu na Europa. A arte nasce primeiro em nossas casas-cascas-oceanos pessoais e coletivos para depois ganhar o mundo.

 

Eu sou porque nós somos. Entre croches, caleidoscópios e emancipações aqui, hoje, olhamos para todas que somos, todas que residem em nós. 

Essas partes e gestos, que aqui se apresentam, gestam tudo aquilo que ainda seremos, e por mais duro que seja, nós sempre soubemos abrir caminhos onde o mato já cresceu, nós sempre romperemos os arames farpados.

 

Sejam todes bem-vindes a essa experiência, que, mais que uma exposição, é um grito de liberdade.

Juliana Gontijo - mentora e curadora 

Exposição: Reside em Nós, de Priscapaes e Lídia Viber

Exposição no Centro Cultural Padre Eustáquio (Rua Jacutinga, 550 - Padre Eustáquio) 01/07 a 30/07

Exposição no Centro Cultural Alto Vera Cruz – (Rua Padre Júlio Maria, 1577 – Alto Vera Cruz) 03/09 a 30/09

Entrada Gratuita

Reside em Nós – resultado da residência das artistas visuais Lídia Viber e Priscapaes exposição circula nos meses de julho e setembro

 

Priscapaes e Lídia Viber são duas artistas visuais, ambas importantes expoentes da cena do grafitti. Após três meses de imersão, pesquisa e diálogos, nos quais trocaram sobre suas formas de produzir, anseios e visões de mundo, foram desenvolvidas seis obras que serão apresentadas na exposição “Reside em Nós”, que, entre outros temas, traz a discussão sobre lugar da arte, que está no cotidiano e não restrita às galerias e espaços acadêmicos. O processo de residência contou com a mentoria da também artista Juliana Gontijo, cuja contribuição foi fundamental para o desenvolvimento do fio condutor entre os trabalhos.

 A exposição será apresentada em dois Centros culturais da cidade: de 1 a 30 de julho no Centro Cultural Padre Eustáquio (R. Jacutinga, 550 - Padre Eustáquio) e de 3 a 30 de setembro no Centro Cultural Alto Vera Cruz (R. Padre Júlio Maria, 1577 - Vera Cruz). 

As regionais escolhidas para a circulação das obras correspondem aos lugares em que elas desenvolveram seus primeiros trabalhos, já que Priscapaes cresceu no bairro Coqueiros, região Noroeste, e Viber no Alto Vera Cruz, zona Leste da cidade. O acesso é gratuito.

 

Produção: Mexirica Cultural

 

Este projeto é realizado com recursos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte.

 

Sobre as artistas

 

Priscapaes

Priscila Paes, conhecida como Priscapaes nasceu em Curitiba - PR, em 11 de junho de 1984, mas foi para Belo Horizonte aos 05 anos de idade e lá cresceu e vive até então. Sua formação passa pelo Teatro, Circo, Design Gráfico até seu bacharelado em Artes Plásticas pela UEMG - Escola Guignard. É arte educadora desde 2011, ministra oficinas de artes para crianças e adolescentes em espaços escolares e não escolares. Seu trabalho tem a figura feminina como fio condutor. Para a artista, a rua é a forma mais eficaz de comunicar com seu público e a arte educação é onde encontra possibilidades de trazer o fazer artístico mais palpável possível.

 

Lídia Viber. 

Nascida na zona Leste de Belo Horizonte, Lídia cresceu nas comunidades do Alto Vera Cruz e Taquaril. Teve seu primeiro contato com o graffiti aos 15 anos em uma oficina social, descobrindo a possibilidade de se expressar através dos desenhos nos muros. A partir desta experiência, começou  a escrever sua história na Arte Urbana. 

Cursou Cinema de Animação e Artes Digitais na UFMG e foi arte educadora de jovens periféricos por oito anos. Em 2013 recebeu a medalha de Honra Clara Zetkin, através  do SINPRO-MG. Lídia  ocupa um lugar de referência no que tange à arte urbana e muralismo brasileiro. Seu trabalho é inspirado pelo realismo mágico e, nessa linguagem, busca estimular reflexões sobre imposições, sonhos e desejos, inseguranças e aceitação, sejam eles apresentados em telas, aquarelas, graffiti ou em grandes murais. 
 

SERVIÇO

Exposição: Reside em Nós, de Priscapaes e Lídia Viber

Exposição no Centro Cultural Padre Eustáquio (Rua Jacutinga, 550 - Padre Eustáquio) 01/07 a 30/07

Exposição no Centro Cultural Alto Vera Cruz – (Rua Padre Júlio Maria, 1577 – Alto Vera Cruz) 03/09 a 30/09

Entrada Gratuita

 

Contatos para entrevistas:

Priscapaes: 31 7509-0584

Lídia Viber: 21 99651-6024 

Assessoria de Imprensa:

Aclive Comunicação e Projetos

31 98703-8902

Ficha técnica:

 

Artistas: Priscapaes e Lídia Viber 

Curadoria: Juliana Gontijo 

Produção Executiva: Mexerica Cultural (Kelli Oliveira e Soraia Cabral)

Comunicação: Mexerica Cultural 

Artes gráficas: Jocosa Aguiar

Produção gráfica: Igor Rodrigues